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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

RADIOGRAFIA DA EXTREMA DIREITA EUROPÉIA

Entre radicalismo e respeitabilidade

Os agrupamentos xenófobos crescem no vácuo deixado por partidos sociais-democratas e conservadores, cada vez mais parecidos entre si. Apesar das particularidades de cada um, identificam-se por uma estranha mescla de neolibealismo com nacionalismo

O fracasso das extremas direitas nas eleições para o Parlamento Europeu de 13 de junho de 1999 e a cisão da Frente Nacional francesa davam a impressão de que o declínio das direitas havia começado. Todavia, diversas votações posteriores desmentem esta previsão. No dia 3 de outubro de 1999, o Partido da Liberdade da Áustria (Freiheitliche Partei Osterreichs — FPO) de Jorg Haider tornou-se o segundo partido austríaco, com 26,91%. Em 24 de outubro, a União Democrática do Centro, partido agrário conservador suíço dirigido por Christoph Blocher, conquistou 22,5% dos votos, tornando-se assim o primeiro partido do país, em igualdade com os socialistas. [1] Acrescente-se ainda a entrada da Deutsche Volksunion (DVU) em vários Landtag (Assembléias com o poder de decisão em alguns estados germânicos) do leste da Alemanha e a confirmação da lenta ascensão do Partido do Progresso norueguês nas eleições locais de 14 de setembro de 1999 (13,4%, ou seja, +1,4%).
A persistência e os sucessos eleitorais de partidos xenófobos do Oeste europeu estão ligados à progressão de uma concepção ultra-liberal da economia e da sociedade, que se caracteriza também pela clara vontade das elites políticas e econômicas de considerar como obsoleta a idéia de Estados-nações. A extrema direita européia alcançou, assim, uma base social e manifesta-se atualmente mais pelas urnas que pelo ativismo violento.
Entretanto, o ativismo violento continua preocupante em países onde os partidos extremistas não encontram nenhuma saída eleitoral, seja devido a um sistema eleitoral que restringe os partidos "anti-sistema", como no Reino Unido (votação majoritária uninominal em um turno eliminatório), seja, como na Suécia, devido à fortíssima pressão social que marginaliza as idéias não-consensuais. Por outro lado, a divisão orgânica e a ausência de um dirigente carismático podem impedir a catalizaçao do movimento, como na Suécia.
Dos skinheads aos grupos legais
Assim, ao lado de partidos legais ou no interior deles (alguns militantes possuem uma dupla filiação), aparecem, já há alguns anos, pequenos grupos políticos violentos, defendendo uma ideologia abertamente neo-nazista e racista. Como demonstraram os cientistas políticos Jeffrey Kaplans e Leonard Weinberg, [2] estes grupos imitaram idéias, métodos de organização e ação de grupos terroristas americanos (The Order, Aryan Nations) e adquiriram uma certa capacidade de cometer ações de grande calibre, como demonstra a campanha de atentados na Suécia.
Estes movimentos perigosos, como skinheads, não provocaram, porém, nenhuma dinâmica política e social — exceto na juventude dos länder da Alemanha Oriental. Nos países onde se manifestam, estes grupos violentos fazem explicitamente alusão à ideologia do nacional-socialismo ou do fascismo, cuja simbologia utilizam mesmo que com isso, desafiem as proibições legais. Esta cepa da extrema direita é atualmente minoritária: são os partidos populistas-xenófobos que têm melhores resultados.
É uma extrema direita eleitoralmente representativa, confinada entre 1945 e os anos 80 à Itália e às ditaduras de Europa do Sul, que age hoje na maioria das democracias ocidentais, confrontadas com o aumento da pobreza de massa e com a evolução rumo ao "multi-culturalismo". A imigração é caracterizada por ondas de naturalizações e regularizações e é acompanhada da separação, em vários países, entre a concessão de direitos políticos e a aquisição de cidadania, assim como de uma política de reconhecimento legal de direitos de línguas e culturas minoritarias.
Situado em países em vias de industrialização durante os anos 60 e 70, o centro de gravidade da nebulosa extremista deslocou-se para o Centro e o Norte da Europa. Paralelamente, o Movimento Social Italiano (MSI), partido-guia da extrema direita de então, foi substituído nos anos 80 e 90 pela Frente Nacional francesa (FN). Este último inspirou numerosas formações estrangeiras com sucessos desiguais, pelo menos na Europa Ocidental: real, mas efêmero (FN belga de Daniel Féret); não desprezível, mas insuficiente para eleger representantes (o Sverigedemokraterna sueco); na maioria, totalmente marginais (a Democracia Nacional na Espanha e o Fronte Nazionale italiano). Mas o partido de Jean-Marie Le Pen já não é mais, em função de sua cisão, um modelo inconstestado.
A "terceira onda"
Existe atualmente uma terceira onda, mais "galvanizadora", encarnada nos "populismos alpinos" (Haider e Blocher; a Liga Norte de Umberto Bossi, a Liga dos tessineses) e escandinavos (o Partido do Progresso norueguês de Carl Hagen ou o Partido do Povo dinamarquês de Pia Kjaersgaard). [3] Privados de toda ligação com fascismo e o nazismo (com exceção do próprio Haider), partidários de um Estado mínimo, xenófobos, mas repudiando, em seus discursos oficiais, o racismo hierarquizante e o anti-semitismo, estes partidos rejeitam qualquer idéia de cooperação com formações como o FN e o Vlaams Blok, vistos como "extremistas", e aceitam a idéia de governar em coalizão com a direita.
Como estes partidos não correspondem ao fascismo tradicional, as explicações de seus sucessos por fatores de tipo "essencialista" (desnazificação fracassada na Áustria; xenofobia antigamente ancorada na Suíça) são insuficientes. Também não bastam para explicar o sucesso de formações do tipo "misto" (recuperação do voto de protesto, filiação de extrema direita), como a FN francesa ou o Vlaams Blok. [4] Este último, por exemplo, é descrito freqüentemente como o herdeiro da porção pró-nazista do movimento flamengo antes da guerra. Entretanto, o cientista político Marc Swyngedouw demonstrou que apenas 4% a 5% dos eleitores "blokkers" fez sua escolha pela defesa do nacionalismo flamengo, contra 17% dos eleitores da Volksunie.
Assim como na FN, aparece uma distinção fundamental entre um quadro partidário ainda marcado, em suas convicções e em sua trajetória militante, pela extrema-direita tradicional e um eleitorado que é completamente desligado dela ou, até mesmo, parcialmente proveniente da esquerda. Em Flandres, 21% dos jovens eleitores socialistas de 1991 passaram posteriormente ao Blok. O FPO austríaco conquistou cerca de 213 mil eleitores do Partido Social Democrata (SPO) nas eleiçoes legislativas de 1999; 10% dos eleitores do Partido do Povo Dinamarquês (Dansk Folkeparti) vinha, em 1998, das classes social-democratas.
Além disso, os dirigentes destas formações, freqüentemente, não possuem sequer um passado extremista: Mogens Camre, dirigente do Dansk Folkeparti, era um deputado social-democrata; Thomas Prinzhorn, estrela em ascensão do FPO, é, como Blocher, um dirigente patronal sem passado "ultra". Trata-se aí de uma diferença considerável com o Movimento Nacional Republicano (MNR) de Bruno Mégret, o que explica parcialmente o fracasso deste último em alargar seu público entre os eleitores da direita clássica. Não somente a separação da FN não deu lugar a nenhum desvio ideológico, mas ainda o MNR, mesmo apresentando-se como renovador e livre dos excessos e deslizes lepenistas, é na verdade controlado por elementos impregnados de ideologia nacionalista-revolucionária (o movimento "Terra e Povo" de Pierre Vial) ou de teses identificadoras da "nova direita" dos anos 70.
Assim, duas concepções do combate político se opõem: o apego às origens históricas, geralmente a partir posições contra-revolucionárias e religiosamente integristas, ou do tipo nostálgica; ou a aceitação de uma modernização programática e organizacional para conquistar o poder. E os partidos que não se reordenaram, marginalizam-se e tornam-se pequenos grupos. O MSI-Flamma tricolore italiano — que reúne aqueles que recusaram o aggiornamento imposto por Gianfranco Fini em 1995 — limita-se hoje a 1,6% de votos. Formações que possuem como único programa a defesa e a ilustração dos regimes autoritários (Espanha, Portugal e Grécia) praticamente desapareceram. [5]
Desemprego e xenofobia
O surgimento dos "populismos" [6] xenofóbos é especialmente forte nas camadas da população mais ameaçadas em seu status social e emprego. Quanto a isto, a situação francesa, com a existência de um voto para FN (alcançando em certas localidades 30% nas eleiçoes legislativas de 1997) não é uma exceção. Esta progressão é também bastante perceptível entre os jovens (33% com menos de 35 anos na França; 35% dos austríacos com menos de 30 anos), entre pessoas despojadas de toda a prática religiosa e entre abstencionistas.
Esta situação pode ser explicada por teorias sobre "os interesses econômicos ameaçados" e sobre "os interesses simbólicos". As camadas ameaçadas pela crise, que vêem a mão de obra estrangeira como concorrente, têm tendência a votar nas formações xenófobas. Os operários e e empregados menos qualificados constituem o essencial do eleitorado do Vlaams Blok. Em 1999, 48% dos trabalhadores escolheram o FPO, que se tornou de longe o primeiro partido representativo dos "colarinhos azuis." Quanto aos Republikaner alemães, o cientista político Patrick Moreau observa: "a correlação entre o baixo nível de organização sindical, a experiência do desemprego, fazer parte de uma família numerosa, a dependência de ajuda social, um baixo nível escolar e a escolha extremista", caracterizam a base operária de um partido que obteve 17% nas eleições regionais de 1996.
Em contrapartida, na Dinamarca e na Noruega, onde o extrema direita alcança 9,8% e 15,3% respectivamente, nenhuma correlação foi encontrada entre a votação que se manifesta a seu favor e o desemprego. No entanto, o eleitorado destes partidos é composto, ao mesmo tempo, de empresários independentes e, em proporção crescente, de trabalhadores. Nestes dois países, os Partidos do Progresso são até mesmo os principais partidos operários, à frente dos sociais-democratas. Uma das possíveis explicações é que, em países onde o Estado assistencialista progrediu tanto sob governos "burgueses" como sociais-democratas, a fidelidade da classe operária à esquerda tende a se degradar. Prevalece, então, o componente autoritário de uma fração da cultura operária que não encontra sua identidade a não ser encarnada nesta "nova direita".
Há um paradoxo a ser explicado. Este eleitorado, essencialmente popular, vota em formações que, pertencendo à extrema direita "pós-industrial", têm de inserir em seus programas, em proporções diversas, o fator "nacional" e elementos neoliberais, ou mesmo libertários.
Fim dos direitos, para atingir os imigrantes
Assim o programa econômico do FPO estipula a necessidade de uma "desregulamentação completa da economia austríaca, que garanta sua competitividade e a criação de empregos." Já o da UDC condena "o recurso abusivo a obras sociais", e reivindica "horários de trabalho e sistemas salariais flexíveis" e a "supressão de certos benefícios do Estado". Tudo, é claro, acompanhado de um "quadro fiscal vantajoso para todas as empresas." Foi assim que os partidos escandinavos nasceram do protesto anti-fiscal e da vontade de limitar as atribuições do Estado-assistencial, temática presente no programa da ala liberal minoritária do Vlaams Blok, controlada pela deputada Alexandra Colen.
A Liga Norte constitui um fenômeno mais complexo, que pode ser explicado como a resposta dada pela classe média emergente e os pequenos empresários do norte italiano a uma situação na qual a modernização do capitalismo local, caracterizada pela explosão da micro-empresa, não foi acompanhada por uma modernização equivalente e igualmente rápida no quadro institucional e político. Foi neste contexto — e também porque a desintegração da Democracia Cristã abriu um espaço à direita — que a Liga emergiu, combinando xenofobia em relação a estrangeiros e italianos do Sul, protesto anti-fiscal e uma reivindicação independentista apoiada em uma identidade e uma história mitificadas (a Padania e o "povo padano" jamais existiram).
O cientista político Herbert Kitschelt [7] explica a adesão das camadas populares ao neoliberalismo pela globalização da economia. Ao impedir as políticas de redução das desigualdade por meio intervenção do Estado, ela levaria os eleitores mais modestos a acreditar que a justiça social pode ser alcançada pelo livre mercado (apresentado por populistas e ultra-liberais como liberando energias criadoras e a iniciativa individual, encorajando assim a ascensão social) e pelo Estado-mínimo. Esta análise explica também de maneira parcial o componente xenófobo do voto extremista. Realmente, aqueles que sentem a competição com estrangeiros no mercado de trabalho só aceitam o programa liberal dos partidos populistas porque este prevê a exclusão dos imigrantes dos benefícios sociais e também do emprego. Em termos de análise custo/benefício, o ultraliberalismo lhes parece tolerável, se for "temperado" pela preferência nacional. Na França, porém, a Frente Nacional tem, bem mais que outros partidos extremistas, dado as costas ao liberalismo. Isto a partir da "virada social" de outono [europeu] de 1995, que permite a existência de uma certa defesa do serviço público e das aquisições sociais — mas reservados aos franceses. O par político-funcionário está associado, neste mesmo discurso, à corrupção e ao desperdício. Este par simboliza a bancarrota do Estado de Bem-estar Social (de onde a onipresença da demanda por ordem e segurança) e uma pressão fiscal esmagadora, ligada ao peso crescente dos "improdutivos", contrapostos a criadores de riqueza (os pequenos empresários, profissões liberais e artesãos, agricultores e mesmo operários).
Com votos da social-democracia
Ainda que não exista uma correlação sistemática entre a presença estrangeira e a votação extremista, a oposição à imigração é incontestavelmente um grande determinante da última. A pesquisa Eurobarômetro de 1997 demonstra que os eleitores da FN, do Vlaams Blok e dos Republikaners aderem à idéia de uma discriminação anti-imigrante e recusam toda forma de multi-culturalismo. Trata-se de partidos onde o racismo hierarquizante repousa sobre o ódio à mestiçagem. Já os membros de outros movimentos, como os populismos escandinavos, a Aliança Nacional, a Lega e o FPO, são menos marcados pelo racismo. Justificam a oposição à imigração por um diferenciação cultural claramente expressa no programa de Haider: "A consciência que se tem das qualidades específicas de seu povo é inseparável da vontade de respeitar o que é específico a outros povos", formulação largamente emprestada do etno-diferencialismo da "nova direita."
Outro sinal da correlaçao entre globalização ultra-liberal e crescimento dos extremismos: de acordo com a mesma pesquisa, 87,5% dos simpatizantes dos Republikaners, 68,4% dos da FN e 45,7% dos do FPO consideram a União Européia algo ruim. Mas esta proporção cai para 40,8% para os Vlaams Blok (o que é pouco mais do que o índice entre os partidários socialistas, 38,9%), provavelmente em razão da popularidade, no movimento flamengo, da idéia de Europa das etnias, principal meio quebrar o Estado-Nação a que são ligados os populistas alemães, austríacos e franceses. Este aspecto anti-europeu é tambem perceptível na Escandinávia (o Partido Norueguês do Progresso fez campanha contra a adesão) e na Suíça (o UDC é neutralista).
As extremas direitas professam, na realidade, um modo de "liberalismo autárquico": um liberalismo sem o livre comércio, que ficaria nas fronteiras e que seria traduzido pelo desmantelamento das aquisições sociais e do Estado. Existem, porém, evoluções. A FN francesa fez campanha, como muitas outras formações irmãs, contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas Blocher não põe em questão esta organização. Haider, por sua vez, apoiou a adesão da Áustria à OTAN.
Enfim, como não sublinhar que o bloqueio dos sistemas partidários tem um papel determinante no aparecimento das extremas direitas na Europa? Na Escandinávia, na Suíça ou na Áustria e na Bélgica — até as eleições de 1999 — a vida política caracteriza-se seja por uma coalizão permanente (SPO/OVP, sociais-democratas/ conservadores, "fórmula mágica" suíça), que garante uma distribuição estável de vagas entre os grandes partidos no Conselho Nacional, seja por uma alternância regular entre uma social-democracia e uma direita liberal que quase não se distinguem mais no plano programático, a não ser pelas receitas que preconizam para regular ou liberar o mercado.
A "clientelismo" dos grandes partidos e suas interpenetrações com a máquina do Estado impedem toda reforma profunda das estruturas institucionais e paralisam o sistema de representação. Atualmente, a rejeição à classe política aparece como um dos determinantes essenciais da votação da FN francesa, do Vlaams Blok, do FPO e da Liga — o eleitorado da Alleanza Nazionale particulariza-se por sua aceitação do jogo democrático e das elites às quais se integrou. Restam como contra-exemplos o Luxemburgo e a Holanda, países de fortes consensos, onde, entretanto, o Nationalbewegong e o Centrumdemokraten fracassaram.
Além da sua dimensão autoritária e xenófoba evidentes, as direitas radicais tiraram incontestavelmente um grande proveito da confusa divisão entre a esquerda e a direita e do amplo consenso que cerca o agrupamento da social-democracia ao "novo centro." Neste sentido, o fato delas encarnarem a força principal da dissensão — em sociedades onde o debate de idéias se reduz ao debate sobre os métodos de administração do modelo liberal — devolve à esquerda suas insuficiências e abandonos, e à direita conservadora, sua cegueira e covardia.
É difícil prever o que estes partidos farão ou fariam no poder. O exemplo italiano sugere um certa "plasticidade " dos movimentos extremistas. O oportunismo de alguns dos seus líderes, tal como Haider, também. Tirados da tribuna, eles poderiam orientar-se em direção aos limites móveis a democracia liberal. Por ora, será necessário, em todo caso, contar com formações que exercem uma pressão autoritária nos poderes públicos e reintroduzir no discurso político valores estrangeiros à democracia — que podem assim, validar uma certa violência xenófoba.
Traduzido por Anelise Storck.
[1] Peter Niggli, "La droite radicale perce en Suisse", Le Monde Diplomatique, dez. 1999.
[2] Jeffrey Kaplan, Leonard Weinberg, Fade to black: the emergence of a euro-american radical right, Rutgers University Press, Piscataway (New Jersey), 1998.
[3] Sobre o neo-nazismo sueco: Démokratins förgörare (obra coletiva), Statens Offentliga Utredningar, Estocolmo, 1999 ; sobre a "nova direita" dinamarquesa: Johannes Andersen et al, Valelgere med omtanke. En analyse af folketingsvalget 1998, Forlaget Systime, Arhus, 1999.
[4] Serge Govaert, "Bruxelles convoitée par l’extrême droite flamande", Le Monde Diplomatique, janeiro 1998.
[5] Os cinco partidos falangistas ou radicais que participaram nas européias de junho de 1999 receberam 61.522 votos. Em Portugal, a Aliança Nacional neo-salazarista não se apresentou. Na Grécia, Proti Grammi e Enosis Kentroon, duas formações anti-semitas obtiveram, juntas, 1,57% (101 mil votos).
[6] Sobre os usos ideológicos deste termo: Serge Halimi, "Le populisme, voilà l’ennemi !", Le Monde Diplomatique, abril 1996.
[7] Herbert Kitschelt, The Radical Right in Western Europe, University of Michigan Press, 1995.
Fonte: Le Monde diplomatique

CONTINENTE PERDIDO?


A África sonha com a "segunda independência"

Quinze anos após o fim da Guerra Fria, mobilizações importantes e criativas, que se articulam em torno dos Fóruns Sociais, sugerem que o continente pode não estar condenado aos golpes de Estado, "democracias FMI", emigração e miséria

Se as mudanças que ocorrem na África, freqüentemente sob formas dramáticas (movimentos sociais, golpes de Estado, guerras, epidemias, miséria, etc.), dão a impressão de um grande caos, as coisas nesta região não são menos compreensíveis do que em outros lugares. As simplicações midiáticas e os preconceitos depreciativos são, geralmente, o que cria a "insolúvel complexidade" do continente [1].
Durante os dez anos cruciais entre 1989-1999, a maior parte dos modelos políticos e econômicos que estruturavam o continente foram repensados. O fim do confronto Leste-Oeste pôs fim aos conflitos atiçados do exterior, como em Angola ou Moçambique. Os regimes cripto-comunistas desapareceram ou se converteram em economias de mercado (Benin, Etiópia, por exemplo). O desmonte do apartheid, na África do Sul, selou o fim simbólico dos regimes coloniais. O pluripartidarismo difundiu-se da República Democrática do Congo (RDC) até Cabo Verde, passando pelo Quênia e a África Central...
Essas mudanças podem ser encaradas de duas maneiras. Por um lado, as tensões de todo tipo que as transformações sempre provocam. O continente dá exemplos delas todos os dias. Do outro lado, há o espaço político e social, a margem de manobra que se abre com o repensar de todo o status quo. Ou seja: cada drama ou perigo carrega também uma esperança ou a possibilidade de uma mudança positiva. É assim com golpes de Estado, que servem às vezes para reconduzir à democracia — como em Mali em 1991, quando os militares derrubaram o ditador Mussa Traoré antes de devolver o poder aos civis. Os rebeldes da Mauritânia tiveram a mesma intenção, em 2005.
Três linhas de fratura permitem observar essas ambivalências. A princípio, as terapias neoliberais e seu fracasso, na maioria dos países, destruíram o contrato social vindo das independências. A África subsaariana é a única parte do mundo em desenvolvimento em que a expectativa de vida recuou para o nível registrado no início da década de 1970, e continua abaixo dos 50 anos).
Regressão social e democracia limitada
Este evento desestabilizador constitui um potente motor para os conflitos sociais e tensões armadas. Ao mesmo tempo, provoca um debate, ainda que incipiente, sobre a necessidade de redefinir as políticas econômicas.
Por outro lado, a democratização ampliou o espaço político, mas de modo incompleto. A tutela das instituições financeiras internacionais põe um manto de dúvida sobre a legitimidade das autoridades públicas. O surgimento de novas potências africanas ou estrangeiras redesenha a geopolítica do continente, deixando a esperança de uma possível redistribuição das cartas do jogo.
O fracasso dos planos de ajuste estrutural é hoje comumente reconhecido [2]. Mesmo que os Estados africanos cheguem a atingir taxas de crescimento relativamente elevadas – 5% em média em 2005, com picos nos países de exploração petrolífera como o Chade (7,7%) ou a Guiné Equatorial (9,3%) –, os índices de pobreza não recuam. Obrigados a reconhecer os resultados pífios na região, economistas neoliberais começam a se perguntar sobre as determinantes deste crescimento e sobre seu conteúdo, como atesta um documento do Fundo Monetário Internacional (FMI) expressivamente intitulado "Dores e crescimento". Segundo o texto, "estudos recentes têm procurado determinar o que caracteriza um crescimento favorável aos pobres, noção para a qual não há definição única. (...) Na África, o papel das desigualdades merece ser examinado, dada a profunda modificação da distribuição da rendas desde 1980 (...). Sabe-se que a evolução das desigualdades pode contribuir para a redução da pobreza, assim como anular parte do recuo desta ocasionado pelo crescimento." [3]
Diante da amplidão do prejuízo, o Banco Mundial e o FMI decidiram patrocinar novos programas econômicos. Estes têm como objetivo central a luta contra a pobreza e a corrupção, o desenvolvimento dos recursos humanos e da infra-estrutura. Os "Documentos Estratégicos de Redução da Pobreza" (DERP) [4] devem permitir que se atinja os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), fixados pelas Nações Unidas [5].
A recusa solene às alternativas
Com os Acordos de Parceria Econômica (APE), estabelecidos pelas cláusulas do Acordo de Cotonou, em 2000, a União Européia passou a reger este novo concerto. O mesmo com a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad) [6]. Para financiar o desenvolvimento, também foram anunciadas reduções ou cancelamentos das dívidas públicas, principalmente pelo G-8, por meio da Iniciativa para Países mais Pobres Muito Endividados (PPME) [7]. Os apelos para aumentar a ajuda internacional partiram de diversos órgãos multilaterais [8].
No entanto, apresentadas como reaproveitamento de lições de políticas passadas, essas iniciativas se ativeram a mecanismos ideológicos neoliberais, evitando abordar o "debate proibido" [9] sobre políticas macroeconômicas alternativas. O relatório "Nosso interesse comum", redigido a pedido de Tony Blair em 2005, é um exemplo típico desses impasses [10]. Por isso, as reduções da dívida estão sempre condicionadas a remédios que matam (liberalização/privatizações/cortes dos gastos públicos e livre comércio/abertura dos mercados à concorrência mundial). A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento sugere, em vão, mudanças mais claras de estratégia, principalmente a reavaliação das regras do comércio mundia [11].
Mas certos politólogos e observadores socorrem os economistas dominantes: o problema não estaria em receitas ruins, mas nos africanos, que não entendem nada. O jornalista francês Stephen Smith tornou-se o principal expoente de uma crítica violenta e arrogante das "mentalidades", que seriam o verdadeiro obstáculo para o desenvolvimento [12]. Seja qual for o grau de erudição de seus autores, essas críticas comportam um "vício de construção": elas não são válidas a menos que se considere a economia liberal como o único modelo possível. Em suma, os africanos recusam-se a morrer curados. Uma falta de imaginação da parte deles, sem dúvida... Mas, em sua desgraça, o continente negro tornou-se o símbolo da violência da economia globalizada e, em solidariedade, o Fórum Social Mundial acontecerá em Nairóbi (Quênia) em janeiro de 2007.
Os três motores da devastação africana
Por ora, os danos estruturais causados às sociedades africanas são consideráveis. Três motores de desestabilização social e política foram postos em marcha. Em primeiro lugar, a inserção nos mercados mundiais fragilizou o setor agrícola (dois terços da população subsaariana vive em áreas rurais), devido principalmente a um jogo de concorrência desleal, que favorece a pauperização e êxodo em direção às cidades. Em seguida, a classe média foi achatada. Desde os anos 80, as sociedades africanas polarizaram-se entre muito pobres e muito ricos: os 20% mais ricos da população têm uma renda dez vezes superior à dos 20% na outra ponta da escala [13]. O desenvolvimento de um país depende em grande parte do dinamismo da classe média, cuja ascensão oferece novas perspectivas aos mais desfavorecidos. "Durante a atual fase de expansão do capital, com suas novas formas de acumulação, muita gente, inclusive a classe média, foi privada de seus meios de produção, empobrecida, maltratada e quebrada pelas forças do mercado" [14], nota o politólogo ganês Kwame A. Ninsin.
Por fim, a ideologia liberal demoliu os Estados, ao pregar disciplina orçamentária, liberalização financeira, abertura dos mercados e privatizações. A situação constitui, desde o início, um entrave para o desenvolvimento: a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento mostrou que um impulso público (financiamento da infra-estrutura, instauração de um quadro legislativo favorável aos negócios, etc.) seria indispensável para a chegada de investimentos do setor privado [15]. A África beneficou-se muito pouco do "boom" de investimentos diretos externos nos últimos anos [16].
Mas o enfraquecimento do poder público contribui também para o deslocamento das sociedades. Por um lado, o Estado se encontra privado dos meios para redistribuir a renda, como ilustra o debate sobre a ausência de proteção social ou a degradação do ensino sofrida por Ruanda, República Democrática do Congo, Costa do Marfim... A pauperização favorece a indisposição nos exércitos mal sustentados, criando contextos favoráveis a golpes de Estado (para citar os últimos: Guiné Bissau em 2003, Mauritânia em 2005, etc.). Os funcionários são pagos com meses, às vezes anos, de atraso. Tanto que o primeiro gesto do general golpista François Bozizé, na África Central em 2003, foi anunciar o pagamento dos funcionários.
Perigosa tentação do etnicismo
Por outro lado, não há mais autoridade legítima para firmar uma meta para a sociedade. Com o poder público incapaz de definir o interesse comum, discursos com base étnica ganham força. Defende-se a autenticidade da indentidade "congolesa" na República Democrática do Congo; o nacionalismo exacerba-se também no Togo, na Costa do Marfim... Esses discursos simplicadores lembram a idéia "aos franceses, a França", tão cara a Jean-Marie Le Pen. "Como a crise inviabiliza o crescimento econômico, que havia permitido o financiamento das políticas multiétnicas do novo Estado, a classe dirigente se dividiu e perdeu toda a legitimidade suscitada pelo desenvolvimento, tendo então de criar ela mesma novas bases, muitas vezes a partir de divisões étnicas" [17], explica o economista egípcio Samir Amin. A idéia de bem público, das elites da independência, seria reconstruída, tendo por motor a redefinição do contrato social.
Típica de crises pós-ajuste estrutural, a situação na Costa do Marfim dá um bom exemplo do que ocorria na região. O conflito iniciado em setembro de 2002 tem como ponto de partida a sucessão catastrófica de Félix Houphouet-Boigny. Este líder histórico havia instaurado um sistema paternalista fundamentado sobre a renda do mercado do cacau e o apoio pouco ativo de Paris. As coisas complicaram com a privatização do setor cacaueiro, a queda na rentabilidade do mercado e também da qualidade de vida da população. A tensão aumenta entre os jovens pauperizados das áreas urbanas, liderados por Laurent Gbagbo, enquanto as populações rurais, antes paparicadas por Houphouet-Boigny, procuram garantir o futuro reavendo as terras entregues a estrangeiros durante o "milagre marfinense". Daí o discurso nacionalista sobre a "marfinidade" e a divisão do país, pondo em conflito populações urbanas e rurais, estrangeiros e marfinenses, jovens e velhos, etc. – cada um acreditando que o lado oposto se enriquecia às suas custas.
As tensões aumentam na África à medida que a democratização permite a verbalização destas, às vezes com sucesso. Os eleitores mobilizam-se em toda parte: o comparecimento maciço às urnas (70%) nas eleições gerais na República Democrática do Congo, em julho de 2006, é emblemático desse movimento. Novos agentes sociais surgem, como as associações de mulheres, artesãos, pequenos empresários, etc., ou sindicatos que ganham voz em debates públicos. Após grandes manifestações populares, um governo "plural" assume o poder no Togo, em outubro de 2006, sob a presidência de Faure Gnassingbe, filho do ditador falecido Gnassingbe Eyadema.
Sinais animadores (e criativos) de mobilização
Em Madagascar, a mobilização dos habitantes precipitou a saída de Didier Ratsiraka em 2002. Na República Democrática do Congo, manifestações "cidade morta" foram organizadas em protesto contra a lentidão no processo de transição, em 2003 e 2004. Conflitos sociais estouram: greves gerais contra o elevado custo de vida na Guiné, na primavera de 2006; movimento contra a privatização das ferrovias no Mali; lutas contra cortes de eletricidade nas periferias da África do Sul, etc. Repensando a tutela do FMI e do Banco Mundial, fórums sociais são organizados regularmente por todo o continente [18]. Os artistas (cantores, rappers, pintores de rua ou cartunistas de jornal, videoartistas e cineastas), agora muito populares, propagam a contestação.
Ocupando o posto deixado vazio pelo poder público, movimentos religiosos desempenham um papel cada vez mais importante no terreno social. Ao lado das associações muçulmanas, estão também igrejas evangélicas vindas dos Estados Unidos. Na Costa do Marfim, o presidente Gbagbo afiliou-se a uma delas. Elas adotam discursos milenaristas e proféticos [19], mas intervêm também como mediadoras de certos conflitos, como na República Democrática do Congo. O islã africano, tradicionalmente tolerante, sofreu impactos dos acontecimentos no Oriente Médio e abalos com a "guerra contra o terrorismo". Certa radicalização foi registrada na Nigéria, Sudão e Somália – ainda que estes exemplos sejam deformados com freqüência pela mídia.
Mas é a irrupção dos jovens no cenário social que mais marca as democracias africanas (de 40% a 49% da população, segundo dados dos países da região subsaariana, tem menos de 15 anos [20]). Marcados profundamente pela degradação de uma educação sem qualidade e também por epidemias como a da Aids [21], eles oscilam entre manifestações agressivas, geralmente em zonas urbanas – como mostram os protestos constantes em Abidjan (Costa do Marfim) e a pouca idade dos rebeldes do norte do país –, e ações de bandos mafiosos – como ilustram as sabotagens criminosas nas zonas petrolíferas da Nigéria.
Juventude, ator social decisivo
Nos subúrbios das grandes cidades como Nairóbi ou Joanesburgo, jovens agrupam-se em pequenas sociedades paralelas, ou, quando chegam à universidade, estudam em situação terrivelmente precária. Movimentos contra altas taxas de matrícula, a ausência de bolsas de estudos ou a má conservação dos alojamentos estudantis e refeitórios universitários abalam regularmente os campi, como em Dacar no último inverno. "A juventude tem sede de justiça (...) Ela quer que façamos as contas. Os jovens querem reaver a dignidade e exigem, ao mesmo tempo, uma explicação para a difícil situação do continente" [22], analisa o cineasta mauritanês Abderrahmane Cissako.
A estes fenômenos junta-se a tentação da emigração – com os dramas humanos associados a ela. Às vezes, a decisão é encorajada pelas famílias e comunidades, que se endividam para permitir a partida de um jovem, na esperança de que este poderá sustentá-los em troca. A emigração se torna um fenômeno paradoxal, porque priva os Estados de suas "forças vivas" enquanto traz, ao mesmo tempo, 17 bilhões de euros por ano às contas do continente, quantia maior que os fundos para o desenvolvimento...
"Nossos dirigentes dão o mau exemplo. Ao enviar seus filhos para estudar ou se enriquecer no hemisfério Norte, eles reafirmam a idéia de que nós não conseguiremos avançar por aqui", lamenta o historiador senegalês Ibrahima Thioub. Mais do que em qualquer outro lugar, as elites africanas têm uma qualidade de vida muito superior àquela do resto da sociedade. A concomitância da democratização e a expansão da globalização criaram um novo tipo de regime político: o que se poderia chamar de "democracias FMI". As elites surgem a partir de uma dinâmica dupla: eleições multipartidárias e a bênção de instituições financeiras internacionais, o segundo elemento impondo limites sobre a efetividade do primeiro.
Com os Estados africanos praticamente sob tutela das instituições financeiras internacionais, candidatos aos cargos supremos passam sempre pelo crivo das "casas financiadoras", cujo apoio ou neutralidade são necessários para o bom governo. O presidente do Mali, Amadu Tumani Turé, admite ter "descoberto muitas injustiças nas relações econômicas internacionais" e sentir não vergonha, mas mal-estar diante desta dependência [23]. Certos dirigentes saíram diretamente do FMI ou do Banco Mundial, como a presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf. Entre os principais atores dos anos recentes, Alassane Dramane Ouattara, ex-diretor de um departamento do FMI, foi primeiro ministro da Costa do Marfim; Nicéphore Soglo, ex-dirigente do FMI, foi presidente do Benin; Ngozi Okonjo-Iweala, ministra das finanças da Nigéria, foi secretária geral do Banco Mundial. Os executivos, como o presidente do Madagascar, Marc Ravalomana, ou os banqueiros, como o primeiro-ministro marfinense Charles Konan Banny, ex-diretor do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), são favorecidos pelas instituições financeiras.
Cenário institucional: corrupção e elitismo
A legitimidade e a representatividade das elites é garantida mais por órgãos internacionais do que pela população. Durante um debate parlamentar, um ministro senegalês calou a oposição com a simples frase: "As instituições financeiras estão de acordo". O conflito do algodão, em 2003, ilustrou paradoxalmente a conivência das elites com os economistas dominantes: os dirigentes africanos exigiram o respeito às regras do livre-comércio, não uma reavaliação de um jogo mundial pautado pela violência no relacionamento entre os hemisférios Norte e Sul.
Às vezes, no entanto, o candidato do sistema Bretton Woods sofre sanções populares. No Benin, expulso do poder em 1991 por Nicéphore Soglo, o ex-ditador Mathieu Kérékou venceu este último em 1996 (antes de deixar voluntária e definitivamente a presidência em 2006). Mais recentemente, eleita em 2005, Ellen Johnson-Sirleaf teve de lidar com um parlamento hostil.
Além do altruísmo sanguinário da "comunidade internacional", a questão econômica perturba sem cessar um jogo democrático ainda mais aleatório, com partidos políticos sem militantes, já que estes não conseguem pagar taxas de filiação. Certos candidatos agem de maneira desonesta, enquanto outros chegam a falsificar resultados eleitorais. Paradoxo: regimes estáveis suscitam o surgimento de uma oposição, mas esta serve apenas para melhor dividir seus adversários (Gabão, Burkina Faso, por exemplo). Na maior parte do tempo, os "observadores internacionais" validam os resultados e parecem não fiscalizar nada além de se certificarem de que o partido em questão é um bom aluno em economia (veja o caso do Zimbábue). A cultura democrática demora a se fixar. Alguns governantes modificam as constituições para eliminar barreiras às reeleições (Burkina Faso, Uganda, Chade). A corrupção apodrece as administrações. A oposição, os jornalistas e os juízes são alvos de intimidação. É o caso do Senegal (prisão do ex-primeiro- ministro Idrissa Seck, agressões contra o deputado Talla Sylla...) e também do Níger, onde dois foram julgados no verão de 2006 por "difusão de falsas notícias" sobre o estado do país.
"Por que não surge um Chávez africano?" [24], lamentou recentemente um estudante num campus de Abidjan [25]. Um confronto de peso aconteceu no início de 2006, entre o Chade e o Banco Mundial: uma possível resposta à pergunta do aluno. Alegando a urgência dos problemas sociais a serem resolvidos em seu país, N’Djamena pediu o desbloqueio dos fundos petroleiros reservados pelo banco para "garantir os interesses das gerações futuras". Se o regime de Idris Deby cuida mais de seu exército (e de seu conflito com o Sudão vizinho) do que de seu povo, o jogo de dependência em que se inscreve a economia do Chade ilustra o que pode ser chamado na África de "maldição do petróleo". A dependência econômica, a isca das multinacionais que pescam no continente como quem joga num cassino [26] e a corrupção das elites representativas se conjugam para privar os povos de sua riqueza.
Potências regionais e cooperação Sul-Sul
Ao mesmo tempo, a geopolítica do continente está em mutação e pode abrir margens de manobra aos Estados. As antigas dependências foram reavaliadas, principalmente o neocolonialismo francês. Contestado na Costa do Marfim, Togo e Senegal, o fenômeno resiste no Chade, Gabão [27].... Outras potências estrangeiras entram no jogo, como a China e os Estados Unidos (entre o big business e a guerra ao terrorismo). Parcerias Sul-Sul são firmadas com países como o Brasil ou a Venezuela, que abriu novas embaixadas na África. Para as elites nascidas depois das independências, os laços coloniais são realidade obsoleta e todas as parcerias econômicas são possíveis.
Mesmo no continente, surgem potências regionais, como a África do Sul, a Nigéria [28] e o Sudão. O conflito de Darfur – em parte uma briga entre o Sudão e o Chade pela hegemonia regional – é acompanhado de perto pela União Africana, que participa também dos esforços pela manutenção da paz (Serra Leoa no passado, República Democrática do Congo hoje). Organizações regionais se reforçam e desempenham um papel cada vez mais importante. Em outubro de 2006, o Conselho pela Paz e Segurança da União Africana e a Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental (Cedeao) tentou dar início ao processo de paz na Costa do Marfim. A falta de recursos ainda é um forte limitador das ações dessas organizações.
O potencial libertador do atual período histórico é prejudicado pela dependência "vertical" dos países, a representatividade enviesada dos dirigentes e seus excessos liberais. O momento é condicionado também pelo fortalecimento de uma cultura democrática própria ao continente africano. E ainda paira sobre ele o sonho de uma "segunda independência", que seria também sinônimo de progresso econômico e social.
Tradução: Silas Martísilas.marti@revistaflan.com
traduções deste texto >> français — Rêve d'une « seconde indépendance » sur le (...) فارسى — رویای « استقلالی دیگر» در قاره آفریقا
[1] Jean-François Dupaquier, "De la françafrique à la maffiafrique", Mouvements, 17 de maio de 2002
[2] Ler Jean-Pierre Foirry, L’Afrique continent d’avenir, Transversales, coll. Débats, ellipses, Paris, 2006.
[3] “Douleurs et croissance. Afrique: la croissance repart enfin, mais comment accélérer et soutenir la cadence pour réduire la pauvreté”, Finances et développement, FMI, Washington, março de 2006.
[4] Elaborados pelo FMI e o Banco Mundial, os DERPs descrevem as políticas e os programas macroeconômicos, estruturais e sociais de um país por vários anos, assim como necessidades de financiamento do exterior.
[5] Ver link.
[6] Adotado pela União Africana em Lusaka (Zâmbia) em julho de 2001, a Nepad foi concebida por cinco "pesos pesados" da política africana: África do Sul, Nigéria, Argélia, Egito e Senegal.
[7] A iniciatica PPME é um dispositivo global de redução da dívida de países pobres muito endividados, que aplicam os programas de ajuste e de reforma apoiados pelo FMI e o Banco Mundial.
[8] Ler “The 25 billion dollars question”, The Economist, Londres, 2-8 de julho de 2005.
[9] Jean-Pierre Foirry, L’Afrique continent d’avenir, Transversales, coll. Débats”, ellipses, Paris, 2006, página 87.
[10] Ver link.
[11] Unctad, Rapport sur le commerce et le développement, 2006.
[12] Stephen Smith, Negrologie. Pourquoi l’Afrique meurt, Hachette, Paris, 2004.
[13] Ver link.
[14] Ler Kwame A. Ninsin, "Les nouveaux mouvements sociaux africains", Et si l’Afrique refusait le marché ?, L’Harmattan, Paris, 2001, página 221.
[15] Unctad, Flux de capitaux et croissance en Afrique, Genebra, 2000.
[16] Ao longo do período entre 1975 e 1982, as entradas de capitais estrangeiros representaram 3,9 % do Produto Nacional Bruto (PNB) dos países africanos. Ao curso do perído entre 1983-1998, elas não representavam mais do que 1,8 %. Pior, constata-se uma fuga dos capitais africanos em direção a países estrangeiros.
[17] Samir Amin, “L’économie politique de l’Afrique et la mondialisation”, in Et si l’Afrique refusait le marché, op. cit., 2001, página 45.
[18] Ver link.
[19] Ler Laurent Fouchard, René Otayek, André Mary, “Des imaginaires partagés”, Courrier de la planète, n°79, Montpellier, janeiro-março de 2006.
[20] Contra menos de 30% nos países industrializados. A África do Sul é um país intermediário, situando-se entre 30 e 39%.
[21] Ler Stephen Ellis, “La crise universitaire”, Courrier de la planète, n°79, Montpellier, janeiro-março de 2006.
[22] Le Rideau rouge, TV5, fevereiro de 2003.
[23] Le Rideau rouge, TV5, fevereiro de 2003.
[24] O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aplicou parte da renda petrolífera em projetos sociais.
[25] Deve-se também ter em conta a idade e especificidade das relações de dominação na África, desde o tratado até nossos dias. E recordar que o Chávez africano, Thomas Sankara, de Burkina Fasso, foi assassinado em 1987, provavelmente com o aval de Paris.
[26] A áspera batalha travada, em outubro de 2006, pels presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, para negociar um acordo leonino assinado com o gigante siderúrgico Mittal Steel é outro exemplo.
[27] Ler Delphine Lecoutre et Admore Mupoki Kambudzi, “Um adeus francês à África?", Le Monde Diplomatique-Brasil, junho de 2006.
[28] Nigéria e África do Sul representam 60% do Produto Interno Bruto da África subsaariana.
Fonte: Le Monde diplomatique

10 temas essenciais em geografia - Vestibular 2009.

A pedido do UOL Vestibular, os professores montaram uma lista com temas considerados essenciais para enfrentar o vestibular 2009 cujas provas estão próximas. Eles destacaram dez temas.

1)Globalização: Balsalobre acredita que a crise de alimentos do primeiro semestre servirá como gancho para discussões sobre a globalização. "O candidato precisa saber o histórico desse processo e as etapas de expansão do capitalismo, com enfoque na face econômica da )globalização", diz Scalzaretto.

2)Transposição das Águas do Rio São Francisco "O candidato tem que saber o que é o projeto [de transposição do São Francisco] e quais os prós e contras apontados pelos especialistas", diz Scalzaretto. "É importante conseguir argumentar dos dois lados", complementa Balsalobre.

3)Biocombustível: Saber quais são as fontes renováveis de energia e a diferença delas em relação ao combustível tradicional são conhecimentos essenciais, na opinião de ambos os professores. Scalzaretto ressalta ainda que a relação dos combustíveis com os problemas ambientais deve ser estudada pelo candidato.

4)Fuso Horário Clássicas nos vestibulares, questões envolvendo fuso horário têm mais chances de cair este ano, apontam os professsores. "Com a mudança do fuso horário no Brasil, o assunto ganha importância", diz Scalzaretto. Na opinião de Balsalobre, o candidato deve saber como era, como ficou e quais as justificativas para a alteração de fuso horário.

5)Amazônia brasileira: Tema de relevância mundial, o desmatamento da floresta Amazônica devido à expansão das fronteiras agrícola e pecuária é apontado por ambos os professores como um possível assunto nos vestibulares. "É importante focar nas conseqüências ambientais que esse processo acarreta, como, por exemplo, a desertificação, diminuição do índice pluviométrico e perda de nutrientes do solo", explica Balsalobre.

6)Problemas ambientais: Outros problemas ambientais também merecem a atenção do candidato. O professor Scalzaretto explica que além de entender o que é chuva ácida, buraco na camada de ozônio, desmatamento e aquecimento global , é preciso saber relacionar esse conceitos com os tratados internacionais como, por exemplo, o Protocolo de Kyoto.

7)3ª revolução industrial: A era da computação e da automação é outra aposta dos professores. "Esse processo vem desde a década de 70 e é caracterizado pelos avanços tecnológicos", diz Scalzaretto. O professor acha que conhecimentos de história sobre as 1ª e 2ª revoluções industriais podem ser cobrados. "É comum essa interdisciplinaridade nas provas de geografia e história", explica.

8)Potências emergentes: Saber quais são os países que formam o Bric e como eles se desenvolveram é importante, na opinião do professor do Anglo. Ele recomenda ainda que os candidatos entendam as disparidades econômicas mundias. "Saber o que é o IDH , dívida externa, fome, problemas sociais é muito importante", diz.

9)Conflitos recentes: Os conflitos por autonomia na Bolívia, a disputa territorial na Região do Cáucaso entre Rússia e Geórgia, os conflitos entre o Hamas e Fath no território Palestino, as questões do Tibet e os conflitos envolvendo a Venezuela devem ser estudadas pelo vestibulando, na opinião do professor do Colégio Vértice. "É importante saber contextualizar cada um desses episódios recentes e entender bem a geopolítica dessas regiões", diz.

10)Envelhecimento da população brasileira: "O Brasil vive um processo de transição demográfica", explica Scalzaretto. O professor acredita que esta é uma boa hora para enfocar no estudo de taxas de natalidade e suas consequências. "Não precisa decorar números, mas é bom saber, por exemplo, que um país é considerado em fase de envelhecimento quando tem cerca de 15% da população com mais de 60 anos (ou 65 nos países desenvolvidos)", diz.

FONTE: UOL VESTIBULAR.

SITES INTERESSANTES SOBRE ÁFRICA

Nesse site, você pode obter informações sobre a TV Escola, que possui uma excelente programação sobre os mais variados temas, divulgada por meio de sua revista e dos cartazes enviados às escolas públicas.

Site da ONG Médicos Sem Fronteiras, criada em 1971 por um grupo de jovens médicos e jornalistas que, em sua maioria, tinham trabalhado como voluntários em Biafra, regiao da Nigéria que, no final dos anos 1960, estava sendo destruída por uma guerra civil brutal. Em 1999, a ONG ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Portal de informação sobre a África, que trata de diversos assuntos: conflitos, fome, Aids, negócios, artes, etc. Traz diversas fotos.Os artigos podem ser procurados por país ou regiões africanas.

O objetivo principal deste site é promover projetos afro-pedagógicos junto à instituições de ensino, fundações, Ongs e professores para que possam estudar, com qualidade e respeito, as principais questões orientadas pelas Leis 10.639 e 11.645, que regulamentam o ensino da História da África e dos negros brasileiros nas escolas e universidades do Brasil.

domingo, 2 de novembro de 2008

http://www.scribd.com/doc/4462428/megacidades

TEORIAS DEMOGRÁFICAS

A TEORIA MALTHUSIANA - Exposta em 1789 (século XVIII), foi a primeira teoria demográfica de grande impacto e até hoje a mais popular de todas, apesar das falhas que apresenta.


Preocupados com os problemas sócio-econômicos (desemprego, fome, êxodo rural, rápido aumento populacional) decorrentes da Revolução Industrial e afetavam seriamente a Inglaterra, Malthus expôs sua famosa teoria a respeito do crescimento demográfico.
Para ele, a principal causa dos problemas que afetavam seu país era o grande crescimento populacional, especialmente dos mais pobres. A solução estaria no controle da natalidade, sendo que o referido controle deveria basear-se na sujeição moral do homem (casamentos tardios, abstinência sexual, etc.). Sua teoria é portanto nitidamente antinatalista e conservadora.
A teoria Malthusiana baseou-se em dois princípios:

1) Caso não seja detida por obstáculos (guerras, epidemias etc.), a população tende a crescer segundo uma PROGRESSÃO GEOMÉTRICA (P.G), duplicando a cada 25 anos.

2) Os meios de subsistência, na melhor das hipóteses, só podem aumentar segundo PROGRESSÃO ARITMÉTICA (P.A).
Para Malthus, a fome e a miséria eram resultados do elevado crescimento populacional. A solução, portanto, estava no controle da natalidade.


OS NEOMALTHUSIANOS - O quadro sócio-econômico do período pós-Segunda Guerra Mundial, marcado por taxas de crescimento demográfico muito elevadas no Terceiro Mundo, ao lado da situação de fome e miséria, ressuscitaram as idéias de Malthus.
Os Neomalthusianos ou alarmistas, temerosos diante desse quadro assustador do Terceiro Mundo, passam a responsabilizar os países subdesenvolvidos e o elevado crescimento demográfico como os culpados pelo referido quadro de horror.
Para os Neomalthusianos a solução estava na implantação de políticas oficiais de controle de natalidade mediante o emprego de pílulas anticoncepcionais, abortos, ligadura das trompas, vasectomia, etc.
Apesar de vários países terem adotado essas medidas, a situação de fome e miséria continua existindo.


OS REFORMISTAS OU MARXISTAS - Ao contrário de Malthus e os Neomalthusianos, que atribuem ao grande crescimento populacional do Terceiro Mundo a culpa pelo estado de pobreza e fome, os reformistas admitem que a situação de pobreza e subdesenvolvimento a que foi submetido o Terceiro Mundo é a responsável pelo excessivo crescimento demográfico e consequente estado de miséria.
Diante disso, os reformistas defendem a adoção de profundas reformas sociais e econômicas para superar os graves problemas do Terceiro Mundo. A redução do crescimento viria como consequência de tais reformas. Eles citam o exemplo dos próprios países desenvolvidos, cuja redução do crescimento só foi possível após a adoção de reformas sócio-econômicas e consequente melhoria do padrão de vida das suas populações.

FORMAS DE CONCENTRAÇÃO DO CAPITAL

1) TRUSTE - Reunião de empresas que perdem seu poder individual e o submetem ao controle de um conselho de trustes. Surge uma nova empresa com poder maior de influência sobre o mercado. Geralmente tais organizações formam monopólios.


2) CARTEL - Associação entre empresas do mesmo ramo de produção com objetivo de dominar o mercado e disciplinar a concorrência. As partes entram em acordo sobre o preço, que é uniformizado. Os cartéis prejudicam a economia por impedir o acesso do consumidor à livre concorrência e beneficiar empresas não-rentáveis. Tendem a durar pouco devido ao conflito de interesses.


3) HOLDING - Consiste no agrupamento de grandes sociedades anônimas . Neste caso, a maioria das ações de cada uma delas é controlada por uma única empresa, a Holding. Uma Holding geralmente é formada para facilitar o controle das atividades em um setor.

sociedades anônimas - designação dada às empresas que abrem seu capital e emitem ações que são negociadas em bolsa e valores.

4) DUMPING - Prática comercial que consiste em vender um produto ou serviço por um preço irreal para eliminar a concorrência e conquistar a clientela. Proibida por lei, pode ser aplicada tanto no mercado interno quanto no externo.


5) MONOPÓLIO - Um determinado setor que é controlado por um único vendedor. Alguns monopólios são instituídos com apoio legal para estimular a indústria nacional.